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Supermercados enfrentam crise de contratação
Salários baixos, múltiplas funções e falta de atratividade afastam jovens das vagas formais no varejo brasileiro
Publicado em 17/02/2026 09:51 • Atualizado 17/02/2026 15:19
Varejo
Reprodução/Internet

Por Marco Ribeiro

O setor supermercadista brasileiro vive uma contradição: há vagas em abundância, mas falta gente disposta a ocupá-las. Estima-se que mais de 350 mil postos estejam abertos, sem candidatos suficientes para preenchê-los. O problema não é a ausência de trabalhadores, mas a falta de interesse em ingressar nesse tipo de emprego.

Nos anos 2000, trabalhar em supermercado era quase um rito de passagem para jovens em busca do primeiro emprego formal. Hoje, esse cenário se inverteu. A combinação de baixos salários, jornadas exaustivas e novas formas de renda, especialmente ligadas à internet, tornou o setor pouco atraente.  

Especialistas apontam que o erro das empresas está em insistir em modelos de contratação antiquados. O regime celetista, com pouca flexibilidade e remuneração limitada, não dialoga com as expectativas da nova geração, que busca autonomia e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.  

A faixa salarial oferecida pelo varejo é considerada baixa. Funções como operador de caixa, repositor e atendente giram em torno de um salário mínimo e meio, muitas vezes sem benefícios adicionais. Isso contrasta com a exigência de múltiplas tarefas, que vão além da função principal. 

Essa sobrecarga é outro fator de desmotivação. O funcionário contratado como operador de caixa, por exemplo, pode ser solicitado a repor mercadorias, organizar prateleiras e até auxiliar em serviços de alimentação. A multiplicidade de funções não vem acompanhada de valorização financeira.  

O setor também enfrenta concorrência com novas formas de trabalho. Jovens preferem atividades informais, como vendas online, entregas por aplicativos ou produção de conteúdo digital, que oferecem flexibilidade e, em alguns casos, ganhos superiores.  

Outro ponto é a percepção de falta de perspectiva. Muitos não enxergam possibilidade de crescimento dentro dos supermercados. A carreira parece estagnada, sem planos claros de progressão ou valorização.  

A escassez de mão de obra já provoca impactos diretos. Há casos de inaugurações de lojas adiadas por falta de pessoal, além de sobrecarga nos funcionários que permanecem. 

Para especialistas, a solução passa por repensar o modelo de contratação. É preciso oferecer salários mais competitivos, benefícios atrativos e condições de trabalho que respeitem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.  

Investir em treinamento e planos de carreira também é essencial. Mostrar ao jovem que há possibilidade de crescimento dentro da empresa pode ser um diferencial na hora de atrair talentos.  

Outro caminho é flexibilizar jornadas. Modelos híbridos ou escalas adaptadas às necessidades dos trabalhadores podem tornar o setor mais atrativo.  

A valorização simbólica também conta. Reconhecimento, ambiente saudável e cultura organizacional inclusiva são fatores que pesam na decisão de permanecer em um emprego.  

Supermercados que já perceberam essa mudança começam a investir em inclusão social, recrutamento de reservistas e plataformas digitais para atrair candidatos.

Mas ainda há resistência. Muitos gestores acreditam que a alta rotatividade é inevitável e não enxergam a necessidade de mudar práticas. Essa visão, segundo especialistas, é um equívoco que agrava a crise.  

O varejo precisa entender que o jovem de hoje não busca apenas um salário. Ele quer propósito, flexibilidade e reconhecimento. Ignorar isso é perder a chance de renovar a força de trabalho.  

Se o setor não se reinventar, continuará acumulando vagas abertas e enfrentando dificuldades para manter suas operações. A crise de contratação é silenciosa, mas ameaça a sustentabilidade do varejo brasileiro.  

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