O programa Meu INSS Vale+, criado em dezembro de 2024 para antecipar parte dos benefícios pagos a aposentados e pensionistas, foi suspenso em maio de 2025 após denúncias de cobranças de taxas e juros ilegais. Agora, a CPMI do INSS apura se o esquema foi usado para desviar recursos por meio de empresas ligadas ao empresário Danilo Trento.
Segundo análises do Coaf, às quais a comissão teve acesso, o grupo J&F repassou R$ 55,7 milhões para empresas associadas a Trento entre dezembro de 2024 e abril de 2025, período em que o programa esteve ativo. Parte dos valores teria sido destinada à CCT Consultoria e Gestão S/A, criada em julho de 2024 e encerrada em setembro de 2025, que recebeu R$ 36,5 milhões em duas transferências.
O relator Alfredo Gaspar protocolou requerimentos pedindo a quebra dos sigilos bancário e fiscal da J&F, da esposa de Trento, Carolina Helena Cardoso Trento, e da CCT Consultoria. Ele também solicitou a convocação de representantes da J&F para explicar os repasses. Os pedidos devem ser votados pela comissão na quinta-feira (5).
Gaspar destacou a coincidência entre as datas dos repasses e a criação do programa, que teria sido estruturado sob medida para o PicPay, com instruções normativas assinadas por Alessandro Stefanutto, então presidente do INSS. Stefanutto foi preso em novembro de 2025 durante operação da Polícia Federal que revelou descontos ilegais em aposentadorias e pensões.
A J&F afirmou em nota que as empresas foram contratadas para prestar serviços de estudos de mercado e prospecção de clientes, e que rescindiu os contratos após as menções ao ex-sócio na CPMI. A companhia disse que uma investigação interna não identificou irregularidades e que os pagamentos foram feitos com emissão de notas fiscais e recolhimento de tributos.
O PicPay também se manifestou, afirmando que o programa Meu INSS Vale+ era apenas uma opção de antecipação de parte do benefício e não realizava descontos.
A CPMI avalia que o caso pode revelar um esquema de favorecimento e desvio de recursos públicos, envolvendo empresas privadas e dirigentes do INSS. A investigação ocorre em meio a denúncias de que acordos políticos para blindar o governo Lula e a família Bolsonaro teriam ruído diante das evidências.
Com a análise dos repasses e a quebra de sigilos, a comissão busca esclarecer se houve uso indevido de verbas previdenciárias e se o programa foi manipulado para beneficiar grupos empresariais e operadores já investigados em outros escândalos.
Fontes: CPMI do INSS e notas oficiais da J&F e PicPay